Relações patológicas

IVAN MARTINS É editor-executivo de ÉPOCA

Havia brigas, havia ciúme, havia violência física, tensão e exasperação. Tive a impressão, pelos depoimentos, que existia entre os dois um jogo permanente de exigências, ameaças, chantagens e rendições.

O que quer que tenha acontecido na noite da morte de Isabela foi uma conseqüência da interação atormentada (e, afinal, malévola) entre seu pai e sua madrasta.

Essa constatação não atenua e nem agrava o crime pelo qual os Nardoni foram condenados. Apenas lhe dá uma moldura: a das relações conjugais recheadas de maus sentimentos e alimentadas pelo pior em cada uma das partes.

Mas por que homens e mulheres vivem nessas masmorras afetivas? Eu não sei. Mas sei que a dinâmica dos casais envolve sentimentos complexos, contraditórios e muitas vezes obscuros para os próprios envolvidos.

Além das coisas boas das quais gostamos de falar, (como ternura, desejo e admiração), há nos relacionamentos boa dose de ingredientes inconfessáveis.

Há raiva, dependência e medo. Há dominação e controle. Há perversidade também. As pessoas convivem com essas coisas como convivem com as coisas boas. E vão tocando.

Nas relações patológicas, os sentimentos ruins fornecem a base da ligação do casal. Isso não quer dizer que as pessoas metidas nesse tipo de parceria vão cometer crimes, mas é provável que elas façam muito mal a si mesmas e aos que estão em volta.

Lembro de um conhecido casado com uma mulher terrível: dominadora, encrenqueira, possessiva, capaz de enorme hostilidade. Ela parecia não admitir que o rapaz tivesse relações fora do controle dela. Aos pouco, foi brigando com todos os amigos e com toda a família dele, até isolá-lo dentro do núcleo formado pela família e pelos amigos dela, complemente submissos à sua vontade. Assim, ficaram numa redoma apenas o casal, a filha e a loucura deles. Por vários anos.

Há uma lógica interna nesse tipo de relação que nada tem a ver com a realidade, mas que justifica quase tudo. É nessa zona cinzenta, de compreensão impossível para quem está de fora, que se constrói a cumplicidade apodrecida desses casais malucos.

Mas relações desse tipo, claro, não são estáveis.Se alguém precisa controle é por que está morrendo de medo e de insegurança. Se alguém se deixa manipular é por que precisa desesperadamente de atenção. Mas quem se curva o faz com raiva e com ressentimento, que vira e mexe explodem. E quem controla está exasperado com o medo de perder seu poder sobre o outro.

Medo e raiva tornam-se nessas relações sadomasoquistas um cimento tão eficaz como desejo e ternura em uma relação saudável: as pessoas se vinculam e tornam-se ligadas através desses sentimentos. Rebelam-se e retornam a eles. De qualquer forma, a tensão é imensa e as pessoas se habituam a ela. Passa a ser o ambiente da casa. Quando há filhos, as crianças vivem e respiram nesse clima e, frequentemente, são alvejadas pela loucura dos pais.

Minha tese sobre esse assunto é que as pessoas envolvidas nesse tipo de relação não são necessariamente malucas, mas a interação entre elas é doentia. A mulher possessiva pode ter um namoro normal com um sujeito que, de alguma forma, a faça tranqüila. Pode ser pelo sexo, pode ser pela dedicação, pode ser por demonstrações práticas de amor. O mesmo homem submisso pode, em outro contexto, ter uma relação altiva e prazerosa, que desperte nele o prazer da autonomia e da independência.

Em geral é isso que acontece: as pessoas passam por relações neuróticas, aprendem algo sobre si mesmas e dão no pé, em busca de coisa melhor.

Nem todas, porém, agem assim. Por juventude, por inexperiência ou por ignorância, alguns permanecem trancados no inferno das relações disfuncionais. A esses pode acontecer de tudo, inclusive violência e crime. Só não há risco da felicidade.

Artigo de autoria de Ivan Martins – Editor Executivo da Revista  Época – publicado dia 31.03.2010 no site http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,15210,00.html.

Uma resposta a Relações patológicas

  1. Marly Terezinha Belle diz:

    “Simplesmente eu”.

    O simples continua sendo o melhor da vida.

    Parabéns pelo blog.

    FELIZ PÁSCOA!

    bJINS

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